O campo que se convencionou chamar de Nova Esquerda de certa forma prega o fim da política tradicional. Um mundo bipolar já não serve mais aos auspícios de sua população. A emergência de confederações como a União Européia e o Mercosul, por si só, sinaliza o reconhecimento de que um mundo múltiplo é necessário.
A queda do Muro de Berlin supostamente marca a derrocada do comunismo e, segundo Fukuyama, o fim da história com a vitória final das democracias liberais do Ocidente. Na verdade a queda do muro significa a derrocada do sistema bipolar da Guerra Fria. O comunismo quando caiu levou consigo sua nêmesis e irmão mais velho, o capitalismo liberal.
Mais do que isso, para a Esquerda a queda do muro significou o fim dos gastos militares excessivos e desnecessários, e a liberação de dogmas ultrapassados, possibilitando a realização filosófica e financeira de novos vôos e a abertura de novos fronts de batalha.
Do ponto de vista da gestão pública o primeiro sintoma do fim da política tradicional foi a crise do Estado intervencionista pós II Guerra Mundial. As sociais-democracias da Europa Ocidental falharam enquanto modelo em meados da década de 90. A fórmula políticas keneysianas de gasto, políticas universais e economia mista (pública e privada) entrou em colapso. As liberais-democracias (Liberal Welfare States) do tipo Consenso de Washington, supostamente o modelo vencedor da Guerra Fria, sucumbiram na sequência, como a crise da bolha do subprime que se arrasta aos dias de hoje (e pelo jeito veio para ficar) demonstra.
No mundo de hoje se destacam alguns modelos alternativos. A China, obviamente, com a sua filosofia de um país dois sistemas, adotada com a incorporação de Hong Kong em 1997, se posiciona como o modelo a ser seguido. Mas a junção da criação de áreas territoriais capitalistas e o foco em exportações e liberalização comercial com um sistema político de partido único (o PC chinês) tem gerado efeitos colaterais indesejados, como o aumento da desigualdade, da pobreza, e da chaga da poluição, sem falar no autoritarismo vigente e na prevalência de trabalho quase escravo.
O Brasil de Lula parece ser a bola da vez. O Lulismo já foi chamado de subperonismo, neoliberalismo latino-americano, de populismo (barato ou não), etc. Lula, o presidente Teflon, se descolou de todos esses rótulos.
Sua doce vitória teve um período amargo, no auge do mensalão não é segredo que temia por seu mandato. Não que a exposição pública ou o trabalho brutal da presidência fariam-lhe falta (quem sabe?). Mas temia mais do que tudo terminar, para a alegria do FHC, como Collor (colleira nelle!).
Eram favas contadas o fato de que Lula não poderia jamais sonhar em suplantar FHC, o professor turbinado. Ambos caminharam juntos muitas vezes no passado, inclusive em tempos muito mais difíceis do que os atuais. Mas cabia a Lula trazer o moderno, contra o tradicional, do irmão mais velho, da figura paterna.
Lula construiu um estado mais justo, mais eficiente em várias áreas, promoveu inclusão social e representou brilhantemente o Brasil na arena internacional (isso o FHC jamais perdoará).
O modelo lulista de estado forte e vingador, economicamente moderno e estável, mas com orientação progressista, também gera muitas críticas, de todos espectros políticos e partidários, mas a forma como o Brasil surfa a crise merece respeito. Assim como há que se reconhecer a profusão de políticas públicas modelares criadas ou recriadas pelo governo Lula, com alto grau de sucesso e impactos visíveis. Os fracassos também são medonhos, o lulismo fica a desejar na política ambiental, na distribuição da terra, e em alguns casos até mesmo em questões éticas.
Mas Lula é, na verdade, o Platão de Garanhuns. Se fosse feito um jogo sobre gestão pública entre filósofos gregos e modernos, Aristóteles e Platão jogariam pelos gregos e Hobbes e Maquiavel pelos modernos. Não surpreendentemente Platão, dos quatro é o único que acredita mais no poder das leis e instituições. Para Hobbes, Maquiavel e Aristóteles o que vale é um governo centralizador de mão forte e pesada (até demais), simbolizado pelo Leviatã de Hobbes, pelo Príncipe de Maquiavel e pelo Rei Filósofo de Aristóteles.
Pois é, Platão, como discípulo de Aristóteles fez valer a tese de que a criatura, o Lula Platão, suplanta o criador, o Rei Filósofo FHC. Também não surpreende o fato de que Platão é o único entre os quatro que veio de origem “humilde”, lhe doía o fato de que enquanto Macedônio, não podia desfrutar das benesses da cidadania grega. Lula veio do povo, e portanto entende o que ele precisa. O modelo lulista merece muito respeito e habilita seu criador a vôos mais altos, um Lula Secretário Geral da ONU, ou presidente do Banco Mundial não seria mal idéia, seria o “Ó” para o FHC e acredito muito bom para o planeta.
Falta a Lula se auto-modernizar agora e renascer de novo, deixando para trás o Platão, porque ele não pregava a democracia, mas uma oligarquia esclarecida, do tipo daquelas que escolhe candidato na ponta do dedazo. Coisa feia Presidente!


.jpg)




